Sabe porque produtor rural não é sinônimo de agronegócio?

No Brasil, a palavra agronegócio virou sinônimo de sucesso. Ela aparece ligada a recordes de exportação, crescimento do PIB, tecnologia de ponta e protagonismo mundial. O problema começa quando esse conceito amplo é automaticamente associado ao produtor rural, como se ele fosse o grande beneficiado de tudo isso.

Não é.

Agronegócio e produtor rural não ocupam o mesmo lugar na economia. Confundir os dois distorce o debate público e cria uma percepção equivocada, principalmente para quem vive nas cidades.

Agronegócio é um sistema. Produtor é quem assume o risco.

O agronegócio envolve muito mais do que a fazenda. Indústrias de insumos, bancos, tradings, logística, frigoríficos, supermercados e exportadores compõem essa engrenagem. O produtor rural é apenas um elo da cadeia, mas é justamente o elo que coloca dinheiro, trabalho e risco reais na produção.

É o produtor quem enfrenta o clima imprevisível, pragas e doenças e oscilações violentas de preços sob pressão constante por resultado. A ele também se transfere, com naturalidade, a responsabilidade de preservar o meio ambiente e salvar o planeta, como se isso não tivesse custo econômico.

Grande parte dos outros setores opera com contratos, margens mais previsíveis e maior capacidade de repassar custos. Quando o agronegócio é apresentado como um bloco único de sucesso, cria-se a impressão de que o produtor rural também está sempre ganhando.

Para quem vive na cidade, essa leitura parece lógica. Para quem produz, ela simplesmente não é verdadeira.

Outro grande problema é que a narrativa única também é construída de dentro para fora

Essa confusão não nasce apenas fora do campo. Muitos agentes do próprio agronegócio contribuem ativamente para a manutenção dessa narrativa única.

Políticos, entidades setoriais, profissionais do agro, formadores de opinião, parte da imprensa e, até mesmo, produtores rurais tendem a tratar o agronegócio como um todo homogêneo, forte e vencedor. Essa simplificação facilita discursos institucionais, agendas políticas e manchetes de impacto, mas tem um custo alto para quem está na base produtiva.

Ao falar do agro sempre pelo topo da cadeia, destacando exportações, faturamento e recordes, o produtor rural real fica invisível. Logo aquele que enfrenta margens apertadas, endividamento e risco permanente. O discurso fica confortável para alguns elos, mas profundamente injusto para quem produz.

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A narrativa única segue mantendo afastada a cidade do campo

Quando o agro é retratado apenas como um setor rico e poderoso, o produtor rural perde empatia social. Ele deixa de ser visto como alguém que trabalha para produzir alimentos e passa a ser percebido como parte de um sistema supostamente privilegiado, fato ainda amplificada por questões ideológicas que instigam a luta de classes.

Isso dificulta o entendimento sobre a formação dos preços dos alimentos, enfraquece o debate sobre crédito rural, seguro agrícola e renda no campo e reduz o apoio da sociedade a políticas públicas voltadas à base produtiva, levando o produtor rural ter que enfrentar de peito aberto as forças poderosas de mercado, hoje globalizado e cada vez mais protecionista.

A cidade passa a discutir números macroeconômicos enquanto ignora a fragilidade econômica de quem sustenta a produção.

Nem todo produtor é grande, rico ou altamente tecnológico

Um erro recorrente é imaginar que todo produtor rural é igual. A realidade do campo é diversa e muito mais complexa do que costuma aparecer no debate público.

Convivem agricultores familiares, produtores pequenos e médios voltados ao mercado local, com produtores empresariais e produtores integrados a cadeias globais. Cada grupo tem níveis distintos de capitalização, acesso à tecnologia, gestão e poder de negociação.

A maior parte da produção do campo abastece o mercado interno. Ainda assim, muitos desses produtores são obrigados a negociar seus produtos com preços definidos no mercado internacional, onde custos, políticas públicas, impostos e incentivos seguem lógicas completamente diferentes das enfrentadas no Brasil.

O resultado é perverso. Produz-se para dentro, mas precifica-se como se fosse fora. E quem paga essa conta não aparece nos discursos, nem nas estatísticas celebradas.

Produzir mais não significa ganhar mais

A agricultura brasileira é altamente produtiva. Isso não garante renda.

Em mercados de commodities, ganhos de eficiência tendem a ser absorvidos pelos preços. Muitos produtores produzem mais apenas para continuar operando, com margens cada vez mais estreitas.

Para quem vive na cidade, esse ponto é essencial. Eficiência no campo não significa lucro automático.

Quem fica com a maior parte do valor?

Quando o alimento chega ao supermercado, grande parte do valor já ficou pelo caminho. Insumos, indústria, transporte, sistema financeiro e varejo capturam parcelas maiores.

O produtor rural, mesmo sendo essencial, costuma ficar com a menor fatia do preço final pago pelo consumidor.

Exigir mais do produtor sem diferenciar perfis produtivos e sem que a sociedade urbana entenda essa conta, transfere pressão excessiva para quem já opera no limite.

Enfim, tratar o produtor rural como sinônimo de agronegócio não é um erro inocente. É conveniência. Essa narrativa protege quem captura valor, silencia quem assume o risco e confunde quem consome.

Enquanto ela for repetida por políticos, formadores de opinião e pela imprensa, o produtor seguirá pagando a conta sozinho.

Mudar logo esse discurso não é opção. É responsabilidade. Responsabilidade de quem comunica, de quem formula políticas e de quem consome.

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