Da canoa furada à ruptura sistêmica no arroz

O que 20 anos da lavoura de arroz revelam sobre o futuro do arrozeiro

Há vinte anos, ao tentar explicar quanto custava produzir arroz no Rio Grande do Sul, utilizei uma metáfora simples: o agronegócio era uma canoa grande, aparentemente confortável, mas que fazia água. O buraco não era tapado. O esforço era contínuo para retirar a água e evitar o afundamento.

Naquele momento, o alerta era claro, mas ainda contido. O risco existia, o retorno era incerto e a margem apertada. Ainda assim, havia uma sensação difusa de que, com técnica, esforço e alguma sorte, o produtor conseguiria seguir navegando.

👆CLIQUE E OUÇA O ARTIGO👆

Como escrevi em 2005:

“Aprendi rapidamente que a lavoura de arroz exige competência técnica, sorte, política agrícola e uma boa gestão. Neste último caso, uma grande falha do produtor ou melhor, do brasileiro, afinal quantos negócios se abrem e se fecham todos os dias no Brasil por problemas de gestão. Ao arrozeiro, devido ao grande volume de recursos envolvidos, só resta chorar, pois seu negócio exige que ele esteja sempre alerta e constantemente fique a retirar a água da canoa.”

Nas últimas duas safras, depois da pandemia, foi possível uma repintura da canoa. Entraram equipamentos novos, melhoraram-se as acomodações e o ambiente parecia mais estável. Porém, novamente, a água passou a entrar mais rápido do que era possível retirar. Desta vez, diferente de 2005, a canoa afundou.

Leia também:

Quanto custa para se produzir arroz? (art. mai/2005)
Produzir Mais e Ganhar Menos? Entenda o Paradoxo da Produtividade no Campo Brasileiro

Olhando hoje para trás, fica evidente que não se tratava apenas de uma canoa furada. Trata-se de um modelo estruturalmente frágil, que resistiu enquanto o ambiente ao redor era mais lento, menos transparente e menos implacável. O que mudou nesses vinte anos não foi apenas o custo, o clima ou o mercado. O que mudou foi a velocidade da ruptura.

Da disputa por margem à disputa pela sobrevivência

Em 2005, o produtor ainda disputava margem. O debate girava em torno de eficiência, produtividade e gestão. Havia frustração, mas ainda existia horizonte. A atividade exigia competência técnica, resiliência emocional e capacidade de absorver impactos.

Em 2025, a discussão mudou de patamar. Não se fala mais apenas de margem, mas de continuidade. O produtor passou a operar em um ambiente onde os choques não são episódicos, mas encadeados. Uma seca severa não é compensada por um ano seguinte normal. Uma enchente histórica não é absorvida por dois ciclos positivos.

O produtor não tem mais anos bons para consertar os anos ruins. Essa talvez seja a maior mudança estrutural do período.

 A ruptura ficou mais agressiva

Hoje, tudo acontece rápido demais e a competição global se intensificou .

A informação é instantânea. A fragilidade é pública. A crise individual vira crise setorial em questão de dias. O produtor passou a operar sob um ambiente de transparência forçada, onde sua vulnerabilidade financeira, climática e emocional está escancarada para o mercado, para o crédito e para a opinião pública.

Isso torna a ruptura mais agressiva não apenas economicamente, mas psicologicamente. O erro custa mais caro. O atraso pesa mais. A margem de manobra praticamente desapareceu.

O paradoxo da produtividade

Outro ponto revelador dessa trajetória é o paradoxo silencioso da eficiência. Em tese, o produtor de hoje é mais tecnificado, mais produtivo e mais conectado do que o de vinte anos atrás. Produz mais por hectare, toma decisões com mais dados e utiliza tecnologias que antes eram impensáveis.

Ainda assim, sente-se mais vulnerável.

A eficiência individual evoluiu, mas o ambiente sistêmico se deteriorou. O ganho de produtividade não se converteu em ganho de segurança. Em muitos casos, aumentou a exposição ao risco, ao endividamento e à dependência de fatores externos que o produtor não controla.

O que acontece hoje com os arrozeiros do Rio Grande do Sul escancara essa distorção. Produtividade não garante rentabilidade. Eficiência não protege da quebra. Trabalhar mais não significa ganhar mais.

O que esses 20 anos revelam

Ao observar essa trajetória em perspectiva, a tendência é clara. Não haverá mais espaço para improviso, romantização ou falta de controle de gestão e do endividamento.

A atividade rural entrou definitivamente em um ciclo onde a velocidade dos eventos supera a capacidade individual de reação. A fragilidade deixou de ser exceção e passou a ser estrutural. A sobrevivência dependerá menos de produzir bem e mais de compreender o sistema em que se está inserido.

A ruptura desta vez é mais agressiva não mais apenas pelos eventos climáticos, mas porque o capital de resistência se esgotou. O endividamento tornou-se sistêmico. A margem psicológica do produtor desapareceu. E o sistema segue sem oferecer amortecedores reais, inclusive na persistência da ausência de uma política agrícola consistente e previsível.

Modelos produtivos baseados apenas em eficiência operacional e tecnológica não sobrevivem a choques rápidos e sucessivos. O produtor rural não está sendo pressionado por incompetência, mas por um sistema que exige resiliência infinita de quem opera com recursos finitos.

Se em 2005 a pergunta era “quanto custa produzir arroz?”, hoje a pergunta correta é outra: quanto custa insistir em um modelo que empurra o produtor para a borda do precipício?

O que está em jogo para o arrozeiro

A questão já não é mais eficiência, tecnologia ou capacidade de trabalho. Isso ele tem. O que está em jogo é a viabilidade de continuar produzindo dentro de um modelo que transfere risco de forma sistemática para quem está na base da cadeia.

O que os últimos vinte anos mostram é que o arrozeiro não perdeu competitividade. Ele produz em escala global, com padrões elevados, mas opera localmente sem políticas que acompanhem esse nível de exigência. O resultado é previsível: mais exposição, mais endividamento e menos margem de decisão.

Ele não enfrenta apenas o clima ou o mercado. Ele enfrenta a ausência de tempo para se recompor, a compressão constante de margem e a falta de instrumentos que reconheçam a especificidade da atividade arrozeira intensiva em capital e dependente do humor das políticas anti-inflacionárias governamentais. Insistir em tratar essa realidade como um desvio temporário é prolongar um processo de desgaste que já ultrapassou o limite econômico e humano.

O arrozeiro e suas lideranças devem tentar compreender que as canoas estão afundando, não por falta de esforço, e continuar na atividade da mesma forma não é resiliência, é risco cego. O desafio agora não é apenas produzir melhor, mas redefinir as condições mínimas para continuar produzindo.

A ruptura em curso não será percebida pelo desaparecimento do arroz do mercado. Ela se manifestará pela saída silenciosa de produtores, pela concentração da atividade e pela perda de autonomia de quem permanecerá na atividade. Quando isso se tornar evidente, o custo já não será apenas do produtor, mas de toda a cadeia e da sociedade.

Fernando Lopa
Mentor para Carreiras e Negócios no Agro!
www.webrural.com.br
12/01/2026

PRECISA DE AJUDA URGENTE, NÃO ESPERE MAIS UM MINUTO?

Para situações urgentes relacionados a sua propriedade, entre em contato direto