O mercado do arroz no Rio Grande do Sul começa a mostrar sinais mais claros de reação, mas a alta ainda não significa rentabilidade. Com menor oferta disponível, produtores estão segurando as vendas e esperando valores próximos de R$ 80 por saca, enquanto as indústrias enfrentam dificuldades para recompor estoques. Ao mesmo tempo, as importações avançam e as exportações perderam força em julho.
O arroz chegou a sair de uma faixa próxima de R$ 48–50 para cerca de R$ 70 por saca nas últimas semanas, mas o custo de produção citado para a atividade varia entre R$ 80 e R$ 85 por saca de 50 kg e para custos dessa monta o produtor deveria estar recebendo entre R$ 90 a R$ 95. Ou seja, mesmo com a melhora das cotações, o produtor ainda opera sem margem suficiente para recompor seu capital e recuperar a saúde financeira da atividade.
E a próxima safra já começa a exigir decisões. Com a previsão de El Niño e possibilidade de chuvas acima da média, o preparo antecipado do solo, a sistematização das áreas e o manejo nutricional ganham importância. O problema é que essas ações também significam mais custo, justamente para quem está com pouco capital disponível. A Conab mostra que a área brasileira de arroz já recuou 13,9% na safra 2025/26, reflexo de um período de preços e custos pouco favoráveis.
O problema vai além da área plantada. Com margens negativas ou próximas de zero nas últimas safras, muitos produtores chegam ao novo ciclo com pouca capacidade financeira para custear a produção e dificuldade para equacionar o endividamento acumulado. A combinação de baixo capital, necessidade de novos investimentos e maior risco climático pode fazer com que parte dos produtores reduza ainda mais a área ou tenha dificuldade para plantar no momento adequado.
Há ainda outra questão que merece entrar nessa discussão: a confiabilidade das estimativas de estoque de passagem. Esses números são fundamentais para entender se existe realmente arroz disponível e para projetar preços, importações e abastecimento. A própria Conab já registrou situações em que a estimativa inicial de estoque foi significativamente revisada após o levantamento dos estoques privados. Se estamos tomando decisões de produção e de política agrícola com base nesses números, não seria importante discutir também como esses estoques estão sendo medidos e qual é o grau de confiabilidade dessas estimativas?
Por isso, a discussão sobre o arroz não pode ficar restrita à recuperação da cotação. Um preço de R$ 80 pode representar uma melhora importante, mas ainda não necessariamente significa recuperação econômica do produtor. Se a atividade não gerar margem suficiente para produzir, investir e pagar as dívidas, o risco é que a redução da área continue.
Se o mercado continuar dependente de importações para recompor estoques e a próxima safra enfrentar problemas climáticos, a discussão deixará de ser apenas sobre preço ao produtor e passará a envolver segurança de oferta, alta de preços na gôndola e a capacidade de o produtor continuar produzindo.
Na Rede de Decisão, talvez a principal questão seja justamente essa: não basta o preço subir; é preciso que ele seja suficiente para remunerar o risco, o capital e o trabalho de quem produz.
Você ainda acha que R$ 80 por saca seria um preço justo para o produtor?
Fernando Lopa
Mentor para Produtores, Gestores, AgroEmpresas e Carreiras no Agro!
14/08/2026
Cópia da matéria que postei na Rede de Decisão no Agronegócio da WebRural, onde os textos são elaborados a partir de uma proposição inicial em um tópico dentro de uma categoria e os textos subsequentes vão ampliando a visão de quem lê de forma a ampliar o entendimento e melhorar a tomada de decisão.
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