Não é de hoje que empresas usam os mercados internacionais como forma de reduzir riscos.
O caso da Camil, no setor agroindustrial do arroz, é um bom exemplo de estratégia adotada por diversas empresas do agronegócio brasileiro. Grandes frigoríficos, tradings e indústrias de insumos e alimentos também expandiram suas operações para outros países como forma de reduzir riscos e aumentar sua competitividade. Ao adquirir empresas líderes no Uruguai, Chile, Peru, Equador e Paraguai, a Camil não apenas ampliou sua presença internacional, mas passou a operar em diferentes mercados, moedas e ciclos econômicos. Como consequência, construiu um hedge natural, equilibrando receitas e custos entre países e reduzindo sua exposição às oscilações de um único mercado.
Para o produtor brasileiro, a lógica deve ser semelhante, mas o caminho é outro. Enquanto uma empresa como a Camil reduz riscos ao operar em diferentes países, o produtor rural depende, quase sempre, das condições do mercado interno para formar sua renda. Quando os preços caem, os custos aumentam e a rentabilidade desaparece, restam poucas alternativas para proteger o resultado da atividade.
É justamente nesse contexto que o acesso aos mercados internacionais deixa de ser apenas uma oportunidade comercial e passa a representar um importante mecanismo de preservação da renda a ser perseguido pelo produtor e suas entidades representativas.
A exportação de gado vivo e, mais recentemente, a exportação de arroz em casca tornaram-se exemplos claros dessa realidade. Embora frequentemente sejam discutidas sob a ótica da industrialização, geração de emprego, da agregação de valor ou do abastecimento interno, o principal aspecto fica em segundo plano: elas representam, para muitos produtores, praticamente a única alternativa capaz de preservar sua renda em momentos de forte pressão sobre o mercado doméstico.
Quando a indústria nacional não consegue absorver a produção pagando preços compatíveis com os custos, ou quando o excesso de oferta derruba as cotações, a abertura de um mercado externo cria uma referência de preço e aumenta a concorrência pelo produto. Não significa que toda a produção será exportada, mas a simples existência de compradores internacionais altera a dinâmica do mercado interno e reduz a pressão sobre os preços pagos ao produtor. Ou seja, essa lógica não é diferente daquela observada na estratégia da Camil, frigoríficos e outras agroindústrias, em ambos os casos, o objetivo é o mesmo: construir mecanismos que tornem a atividade economicamente mais resiliente.
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Há 20 anos defendo essa visão. Grande parte da discussão fica limitada a se somos favoráveis ou contrários à exportação de gado vivo ou de arroz em casca, porém devemos entender que essas operações são uma consequência, e não a causa do problema. Quando elas passam a ser praticamente a única alternativa para preservar a renda do produtor, o que está sendo revelado é a fragilidade dos mecanismos de proteção da atividade agropecuária no Brasil.
O país precisa avançar na construção de políticas anticíclicas, como ocorre em países concorrentes, capazes de oferecer previsibilidade e maior estabilidade de renda nos momentos de crise. Enquanto isso não acontecer, o mercado internacional continuará exercendo, na prática, um papel que deveria ser compartilhado pela política agrícola: preservar a renda de quem produz.
Para pecuaristas e arrozeiros, exportar o que realmente eles produzem (boi e arroz em casca) não deve ser encarado apenas uma oportunidade comercial e sim ser um instrumento indispensável para manter a atividade economicamente viável. Afinal, nenhum produtor consegue investir, inovar ou produzir alimentos de forma sustentável quando sua renda depende exclusivamente das oscilações do mercado interno e, sem rentabilidade, o produtor reduz investimentos, compromete a produtividade, adia a renovação tecnológica e enfraquece toda a cadeia do agronegócio.
No longo prazo, perde o produtor, perde a indústria, perde o consumidor e perde o país, como estamos vendo nos dias de hoje.
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